Fernanda Young diz que "tentou se matar se autodestruindo"



Por trás das mais de 20 ta­tuagens que cobrem o cor­po de Fernanda Young e das posturas públicas às vezes agressivas, às vezes polêmicas, se esconde uma mulher tímida e uma mãe cuidadosa. No fim do ano passado, a mãe foi posta à prova: a filha adotiva de Fernanda, Catarina, de um ano e três meses, teve de ser operada subitamente de um cisto aracnoide, uma lesão numa membrana cerebral que causa acú­mulo do fluido cérebro-espinhal. Fernanda é mãe também de John, de quem tem a guarda provisória en­quanto corre o processo de adoção, e das gêmeas Cecília Madonna e Stella May, 9 anos.

Os comentários ácidos da autora de "O Pau" e outros nove livros, cinco roteiros, duas peças de teatro e do roteiro da série televisiva "Os Normais" costu­mam aparecer no Twitter, ao qual ela aderiu porque havia um perfil falso seu. "Pareço mais virulenta porque o verbo é implacável", diz ela, que completa 41 anos em 2011. "A maioria das pessoas é legal, são poucos os babacas. Atraio pessoas inteligentes."

Você começou várias fa­culdades, mas não concluiu ne­nhuma. Por quê?

Achei chatíssimo. Fiz letras, jornalismo, rádio e televisão, e não consegui terminar. Parei de estudar aos l6 anos, voltei aos 22, e terminei o ensino médio no supletivo. Claro que não reco­mendo e que não ideal, e tomara que meus filhos não façam isso, mas os anos em que e eu fiquei fora da escola foram os que eu mais es­tudei. Obviamente, falhas ocorrem. Mas isso é quando fico con­fusa, fico sensacional. Adoro o erro - não sei por que as pessoas querem excluir os erros.

Você faz terapia para lidar com a depressão?

A vida inteira, desde os 13 anos. Quando perdi o meu bebê (em um aborto espontâneo, aos três meses de gestação), em 2007, resolvi parar. Foi abrupto. Minha analista não gos­tou nada dessa decisão, mas eu queria experimentar a dor e ver aonde que estava minha voz. Deu certo por um tempo, depois tive que voltar. Agora está bastante claro para nós duas que nesse instante não é mais necessário.

Você já tentou se matar?

De certa forma sim, mas me autodestruindo. Uma vez eu quis cortar o pulso, de um lado só. Eu era muito pequena, sofria de depressão na infância. Eu falava: "Por favor, quero morrer, quero morrer." Vi um documentário sobre suicídio infantil, que é um assunto muito perigoso, e chorei copiosamente. Entendi tudo. É tão triste porque é uma doença psí­quica, emocional, que é um fato concreto. Posso dizer que estou cura­da, mas preciso ficar atenta, fazer exames. Fiquei tão feliz quando fui diagnosticada com depressão. Antes eu achava que era espírito de porco.

Você já esteve melhor na sua vida do que hoje?

A cada dia em que eu estou mais distante da minha infância estou melhor. Não vivi nada concreto a ponto de dizer que essa situação tenha sido abusiva, de violência, mas minha natureza me providenciou uma infân­cia muito melancólica. Adoro crescer, me tornar forte, saber que tenho meus filhos para cuidar. Olho para eles e vejo crianças felizes. Na idade das gêmeas, eu era um traste. Ao falar isso, parece que você tem uma deficiência qualquer de caráter se você não con­seguiu ser feliz na infância. Ocorreu que eu tinha dislexia, asma, meus pais se separaram, e foi terrível. Não posso negar isso. Às vezes, posso estar fazen­do uma grande sacanagem dizendo para minha família que fui infeliz. Meus pais não fizeram nada, foram pessoas afetivas, amorosas, não quero acusá-los de nada. Mas a obrigação de ser feliz é um abuso.

Como a maternidade impac­tou sua vida? A depressão pesou no processo?

As pessoas precisam passar por crises, por um processo depressivo para ter um upgrade. Minha última crise depressiva veio em parte desse contato com a maternidade, e não só o pós-parto. Acho estranho gente que não sente o conflito do pós-parto, é um raio que cai na sua cabeça. Vem uma consciência de perigos e morte muito grande. Período de culpa e medo. Drama hormonal devastador. Ser mãe trouxe uma necessidade de conectar vários valores, comprometimento com o carma de criar alguém. Na verdade, a maternidade é a coisa mais impor­tante para mim. O resto pode doer aqui ou ali, mas a vida é bela através dos filhos. Tenho as gêmeas, que vão fazer 10 anos, a Catarina, 1 ano e três (qua­tro) meses e o John, 7 (8) meses. Fui mãe tardiamente, com 30 anos. Nunca foi um projeto, nem pensei que fosse acontecer. Talvez a Catarina, porque sempre soube que iria adotar.

Houve muitas críticas ao seu ensaio nua. É uma questão de mo­ralismo?

Com a internet, as pessoas têm acesso a um erotismo extrema­mente intenso e muitas vezes perver­tido. Minha irmã disse que outro dia abriu um arquivo e tinha um homem transando com uma cobra. Isso é perversão. Não estou fazendo julga­mento nenhum, mas não vivo esse mundo, não tenho interesse por ele. Mas pôr a bunda de fora, o púbis, inclusive peludo - também não enten­di por que as pessoas ficaram indig­nadas com a quantidade de pelos que eu tenho -, me deu uma liberdade que nunca mais perderei. Foi incrível. Estou livre, livre mesmo.

Você respondeu a diversas críticas, muitas vezes de forma agres­siva. Por quê?

Aconteceu uma coisa curio­sa na época. Fiquei muito cansada no final desse processo todo, porque a Catarina teve um problema de saúde grave. Ela operou a cabeça seis dias depois do lançamento da revista. Ela teve cisto aracnoide, que foi descober­to por causa de uma intuição minha. Posso dizer que salvei a vida dela, e não me envaidece. Me cansou muito salvar a vida de alguém. Não era uma coisa que eu queria. Fico feliz que Deus tenha me dado o senso de, na semana mais doida da minha vida, não estar ausente de mim mesma. Percebi que ela estava letárgica. Os médicos me disseram que nem os pais mais cuida­dosos conseguem enxergar o que enxerguei. Ela estava com uma bolha na cabeça, que ia estourar. Se não tratasse rápido, ela ia ficar com danos na área matara. Enquanto as pessoas estavam dando na minha cabeça, eu estava dentro de um hospital, acordada. É isso que me deixa indignada.

Como lida com o envelheci­mento?

Minha estética não é vai­dade pura e simples. É uma obrigação, é um recurso de sobrevivência. Boa parte dos trabalhos que eu consigo depende da minha estética. Quem eu me tornei necessita da minha beleza. Por que a Madonna milita? Porque ela precisa. Eu passei uma crise f... que durou uns dois meses, fiquei um caco. Cheguei à conclusão de que de fato tinha chegado à meia-idade. Estou indo em direção a um caminho que não tem retorno. As pessoas falam na crise dos 30. Ter 30 é incrível. O (es­critor) João Ubaldo Ribeiro diz que a grande beleza da mulher é dos 35 aos 40. Você está mais poderosa, mais bonita. Amadurecer é muito bonito nesse instante. Na Europa tem mulheres lindas aos 40. No Brasil, as pesso. as piram. Fica todo mundo moreno e com luzes, com cabelo liso e longo. O pessoal fica muito louco, é um pensa­mento de adolescer.

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2 comentários :

Marcos disse... [Responder comentário]

Gosto de mulheres assim, com conteúdo.

Dig disse... [Responder comentário]

Realmente se Deus existe ele é muito injusto!!!!

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