Educação através do mito



Ao mesmo tempo em que o gênero humano evoluiu, transfor­mando a natureza através do trabalho, o ser humano também desen­volveu idéias, valores e crenças sobre seu modo de vida. As pessoas não só trabalham, também refletem e representam o mundo em que vivem. Esse fato faz com que o ser humano se preocupe em transmitir suas experiências cotidianas a seus semelhantes. Aquilo que se aprende na prática é veiculado para outras pessoas, o que possibilita que o conhecimento humano sobre a natureza não se perca, mas se acumule de geração em geração.
 Os mais velhos ensinam aos mais jovens os segredos da sobrevivência e as formas possíveis de entender o mundo em que vivemos. Nasce assim a educação: maneiras de transmitir e assegurar a outras pessoas o conhecimento de crenças, técnicas e há­bitos que um grupo social já desenvolveu a partir de suas experiências de sobrevivência.
Com isso, podemos afirmar que a educação também é dimensão essencial na evolução do ser humano, pois em cada conquista rumo à civilização também se faz presente a necessidade de transmissão aos semelhantes. A educação nasce como meio de garantir a outras pessoas aquilo que um determinado grupo aprendeu.

A princípio, a educação é informal, nasce de modo espontâneo, sem necessitar de professores ou escolas, está em todo lugar e atinge a todos em meio a suas atividades cotidianas. Onde um sabe, faz e ensina; outro não sabe, observa e aprende.

Nas palavras do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, a edu­cação aparece numa sociedade indígena quando: "As meninas aprendem com as companheiras de idade, com as mães, as avós, as irmãs mais velhas, os velhos sábios da tribo, com esta ou aquela especialista em algum tipo de magia ou artesanato. Os meninos aprendem entre jogos e brincadeiras de seus grupos de idade, aprendem com os pais, os irmãos-da-mãe, os avós, os guerreiros, com algum xamã (mago, feiti­ceiro), com os velhos em volta das fogueiras. Todos os agentes desta educação de aldeia criam de parte a pane situações que, direta ou indiretamente, forçam iniciativas de aprendizagem e treinamento. Elas existem misturadas com a vida em momentos de trabalho, de lazer, de camaradagem ou de amor. Quase sempre não são impostas, e não é raro que sejam os aprendizes os que tomam a seu cargo procurar pessoas e situações de troca que lhes possam trazer algum aprendiza­do".

Vemos que a educação nasce como processo comunitário de en­sinar e aprender, ligado com as necessidades de cada grupo social. Essas formas primárias de socialização estão presentes não só nas so­ciedades do passado, nem só nas sociedades indígenas, mas também fazem pane da nossa sociedade urbano-industrial, pois, nos dias de hoje, mesmo existindo uma instituição especializada em educar (a esco-a), vemos também a existência de toda uma rede de relações educativas informais na família, no trabalho ou no lazer.

Podemos também afirmar que essa educação se dá através do mito. O que isso significa?

Podemos definir simplificadamente o mito como conjunto de estórias, lendas, crenças, religiões ou ritos que compõe a vida de qual­quer povo. Os mitos carregam mensagens que se traduzem nos costu­mes e na tradição de um povo, são uma maneira possível de explicar um modo de vida. Se a filosofia ou a ciência explicam o mundo através da razão, um mito o explica pela fé (crença sem necessidade de provas).

Podemos afirmar que o ser humano não se caracterizou sempre por entender o mundo através das provas que o raciocínio lógico lhe oferece. Antes de explicá-lo racionalmente, o ser humano sente o meio em que vive (tem medo, coragem, ansiedade); o mito fez com que o ser humano procurasse entender o mundo através do sentimento e buscando a ordem das coisas. Por isso o mito é educativo: traz men­sagens ou normas que podem criar um tipo de comportamento no indivíduo necessário para a vida em grupo.

Por exemplo, há um mito muito difundido entre alguns índios do Brasil, no qual a origem da noite é atribuída à atitude de um grupo que, não obedecendo às tradições do seu povo, quebrou um coco proi­bido. Dali fugiu a noite, escurecendo toda a mata. Os deuses sentindo piedade dos demais índios, devolveram-lhes a claridade do dia, mas com a condição de que agora seria sempre intercalada com um período noturno, para que todos se lembrassem do ocorrido.

Não nos preocupando em saber se realmente a existência da noite pode ser explicada por esse mito ou pela idéia científica do movimento do globo terrestre, o que importa é saber que esse mito acaba sendo educalivo, porque ele fixa uma norma social: os perigos que podem aparecer a um grupo quando não se respeitam certas tradições ou o cuidado que devemos ter com o desconhecido ...

É importante salientar que o mito não é algo do passado apenas; em nossa sociedade urbano-industrial, também vivemos ligados aos mitos: o carnaval ou o futebol são, por exemplo, atividades que nos fornecem mitos que dão origem a modelos e padrões de comporta­mentos sociais. Em relação ao passado, a diferença é que não possuí­mos apenas a consciência mítica, temos também a consciência filosófica e a consciência científica, formas racionais de explicar o mundo. Na época das primeiras civilizações, o conhecimento humano ainda estava nas primeiras etapas de desenvolvimento e por isso existia.a consciência mítica: esta era a única forma possível de pensar. Será apenas com o desenvolvimento da civilização grega clássica (aproximadamente 300 a.c.) que o ser humano ocidental começa a entender aguilo que ocorre no mundo, não só pela emoção, mas racionalmente. É nesse momento que nasce a filosofia.
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