Agricultura e biodiversidade



A biodiversidade sempre despertou o interesse do homem e foi fundamental para assegurar o sucesso de nossa espécie. Ela determinou o uso e ocupação dos territórios, moldou culturas e provocou grandes migrações humanas na busca de novas condições e oportunidades. Atualmente a biodiversidade é entendida como uma riqueza estratégica muito promissora e cuja conservação é justificada, sobretudo em termos de potencial para solucionar problemas no futuro. Ela representa uma alternativa de soluções para a produção de medicamentos, cosméticos, alimentos, vestimentas, materiais para inúmeras funções, geração de energia limpa e renovável etc.
Essas inovações estão com mercado garantido e em franco crescimento. O alvo central para a conservação da fauna selvagem tem priorizado a preservação de ecossistemas naturais ou a restauração de habitats. Desta forma, pouca atenção tem sido conferida ao papel das áreas agrícolas e ambientes associados ao processo produtivo na manutenção da biodiversidade animal. A presença da fauna selvagem em áreas agrícolas é um fato ain­da pouco estudado. São quase inexistentes informações sobre as oportunidades oferecidas pelos sis­temas agrícolas à fauna selvagem, esse hiato tende aumentar mm a expansão de culturas voltadas para a produção de combustíveis renováveis e agro energia. As maiores economias mun­diais têm seus parques industriais, calefação doméstica e frotas au­tomotivas totalmente dependen­tes do uso da energia estocada na forma de carbono fóssil. A utiliza­ção exagerada desses depósitos de carbonos imobilizados através da queima levou a um acúmulo exagerado de dióxido de carbo­no na atmosfera terrestre. O "Aquecimento Global" é pre­ocupante, pois deverá acarretar conseqüências idesejáveis para a manutenção da biodiversidade em dimensões planetárias, única forma de atenuar as "Mudanças Climáticas Globais" conduz à duas medidas princi­pais, reduzir as emissões e retirar o excesso de gás carbônico da atmosfera. As soluções deverão ser empreendidas nesses dois caminhos para colhermos resul­tados efetivos. Porém, as matrizes energéticas dos grandes consumidores de petróleo deverão ser revistas e a agricultura possui grande potencial na produção de fontes de energias à base de carbono renovável. O Brasil é um dos países com grande potencial de intensificação da agricultura, pois dispõe de muita energia solar, água .e culturas capazes de gerar grandes quantidades de combus­tíveis "limpos", como o biodiesel, o etanol, o carvão vegetal etc. A cana-de-açúcar retira, da atmosfera mais de 50 toneladas de carbono por hectare em sua biomassa, o que significa uma grande contribuição contra o "efeito estufa". Além do açúcar, ela também gera etanol, um combustível renovável, barato e que substitui totalmente a gasolina, reduzindo a emissão de dióxido de carbono e de outros gazes tóxicos. Finalmente, a química derivada da cana, e não do petróleo, cresce no Brasil.

CUIDANDO DA FAUNA Há quase três décadas, pes­quisadores da EMBRAPA vêm desenvolvendo e testando mé­todos para avaliação da biodiver­sidade em propriedades rurais, com ênfase no estudo da fauna selvagem. Esses estudos têm sido áplicados em diversos tipos de propriedades rurais e em vá­rios ecossistemas. Durante este período centenas de espécies de vertebrados selvagens têm sido detectadas nos sistemas agrícolas, e alguns com riquezas bastante elevados.

Em uma dessas pesquisas em desenvolvimento com cana-de-açúcar sob cultivo orgânico e manejo agro ecológico, nas fazendas da Usina São Francisco em Sertãozinho, detectou-se uma riqueza e diversidade faunística excepcionais, foram cadastradas 247 espécies de ver­tebrados terrestres (5 anfíbios, 13 répteis, 191 aves e 38 mamíferos). Nesta área de 79 km quadrados, foram iden­tificadas quase um terço das espé­cies de aves do Estado de São Paulo. São mais de 40 famílias, onde 191, espécies são de aves de rapina, indicando um farta ocorrência de presas assegurando uma pirâmide alimentar consolidada e o controle natural dos efetivos populacionais. A ocorrência de animais raros, como o canarinho-rasteiro (Sicalis citrina), o papagaio-do-mangue (Amazonaamazonica), o gato mou­risco (Herpailurus yagouarondi), o mão-pelada (Procyon cancrivorus), o tamânduá-bandeira (Tamandua tetradactyla), o veado-catingueiro (viazama gouazoubira), a sucuri (Eunectes murinus) etc, são alguns exemplos das 35 espécies identifi­cadas, e consideradas sob ameaça no catálogo do documento "Fau­na Ameaçada no Estado de São Paulo", elaborado segundo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Ainda foram observadas espécies como a onça parda (Puma con­color), o lobo guará (Chrysocyon brachyurus), o jacaré-coroa (Pa­leosuchus palpebrosus) etc. Nas incursões nas fazendas de cana orgânica, a visualização de aves e mamíferos com filhotes não foi uma cena rara. Este fato tem uma importância particular, pois indica que a fauna está se reproduzindo localmente e as populações rela­tivamente bem implantadas. As possibilidades de uso das culturas como habitats são múlti­plas para a fauna, podendo suprir necessidades de alimento (frutas, grãos etc), de abrigo (silvicultu­ra, cana-de-açúcar etc) ou ainda como habitat de reprodução. Os agro ecossistemas servem de corredores para inúmeros animais selvagens e até como local de pa­rada para várias espécies de aves migratórias, oferecendo áreas de descanso e alimentação. Os re­sultados de biodiversidade são ex­celentes indicadores de sustenta­bilidade ambiental e comprovam que várias dimensões do nicho ecológico das espécies estão sen­do satisfeitas em um sistema de produção com monocultura sob manejo agro ecológico.

Um novo conceito está surgin­do, a fauna selvagem pode ser con­siderada como parte integrante do processo produtivo nos sistemas agrícolas e na maioria das vezes ela tem aportado uma contribuição positiva no controle de populações de insetos, na polinização, disper­são de sementes e na ampliação da rede de biodiversidade. Essas interações da fauna e os diferentes habitats nos sistemas de produção agrícolas começam apenas a serem desvendadas e seguramente pode­rão ser melhoradas. O crescimento da biodiversidade faunística neste setor trará um novo paradigma para conquistar mercados de con­sumidores com consciência am­biental e estará contribuindo com políticas públicas direcionadas para a preservação da vida selvagem. Os primeiros resultados das pesquisas em desenvolvimento apontam para uma relação cada vez mais simbió­tica e igualmente conciliatória entre produção e conservação.

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